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Borrão de trincha

dema



Tão grande a ânsia por coisa bela,
que a brilhante ideia se atravanca,
pichação disforme de aquarela,
borrão de trincha na folha branca.

Esvai-se a imagem do pensamento,
indômita pressa a ofusca,
impõe, à alma, cruel tormento
e, à mente afoita, maçante busca.

Procura, alhures, por qualquer musa
que de bom grado lhe avive o estro,
se acaso encontra, ouve só recusa
(Foram mandantes de algum sequestro?).

Quer de manhã, de tarde ou de noite,
a todo o tempo e em todo lugar,
castiga o verso a poder de açoite,
nasce um poema sem cintilar.

Que das estrelas, do azul do mar,
das rosas, cravos e dos jasmins,
dos beijos doces sob o luar,
fazendo inveja nos Serafins?

Maldita hora, em que o nada aflora,
seta encravada no coração,
peço-lhe, Euterpe, que, sem demora,
me esguiche um jato de inspiração.

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